Por Marianna Olinger*
Nas últimas décadas, a palavra gênero tem sido crescentemente utilizada como categoria de análise para compreender fenômenos como desigualdades e violências. Apesar de ser comumente usada como sinônimo de “mulheres”, a partir da década de 70 pesquisadores e historiadores passam a empregar a palavra gênero no sentido de rejeitar um determinismo biológico baseado em diferenças sexuais, e valorizar a organização social e relacional entre os sexos. Nesse sentido, gênero se torna uma forma de identificar construções sociais sobre os papéis “próprios”, ou atribuídos, a homens e mulheres. Apesar de gênero ter se tornado uma categoria de análise bastante utilizada para compreender atitudes e comportamento de jovens homens e mulheres – sobretudo nas áreas de saúde sexual reprodutiva, sexualidade e violência contra mulher – como será que as diferenças de gênero se relacionam com e/ou influenciam os altos níveis de violência letal que vivemos hoje na sociedade brasileira e na América Latina? O que faz com que homens jovens sejam vítimas de taxas desproporcionalmente altas de homicídio, e que sejam também protagonistas importantes para a violência letal em nosso país? Será acaso o fato de os sistemas de justiça juvenil e justiça penal serem ocupados majoritariamente por homens? Se por um lado os homens jovens são os principais atores diretos – vítimas ou autores - da violência letal em nosso país, mulheres jovens também são vitimizadas constantemente por diferentes tipos de violência, com frequência pouco visíveis em nossa sociedade. O que então isso tudo tem a ver com gênero?
Desde o início dos anos 90 vemos uma contínua e muitas vezes não declarada guerra, que varia em intensidade, entre polícia e gangues criminosas em toda América Latina. Agravada por uma cultura violenta, onde brigas de rua, disputas domésticas e pequenos roubos muitas vezes terminam em morte, essa guerra se vê diretamente refletida nos índices de homicídios da região (que está entre os maiores do mundo nos últimos 10 anos) e afeta desproporcionalmente homens jovens. O resultado desses índices de homicídio são sentidos nas vidas de homens e mulheres jovens e suas famílias. No Brasil há atualmente aproximadamente 200 mil homens a menos na pirâmide etária entre 15-29 anos. O IBGE estima que até 2050 serão 6 milhões de homens faltando na população brasileira majoritariamente como resultado de mortes em acidentes de carro e homicídios — sendo a maioria relacionado com armas de fogo, ocorrendo majoritariamente em áreas urbanas de baixa renda.
Escutar histórias sobre o impacto deste tipo de violência em áreas urbanas de baixa renda ajuda a entender como essas violências moldam e influenciam formas de interação que legitimam o uso de violência. Em uma pesquisa da qual participei em 2005, na qual estudávamos as causas para o envolvimento de homens jovens em organizações criminosas em diversos países, destacavam-se os discursos com ênfase em papéis sociais atribuídos a gênero para justificar atitudes violentas por parte de homens jovens e meninos. Era comum justificar o ingresso em um grupo criminoso devido ao status adquirido na comunidade – sobretudo ao acesso a mulheres, a obrigatoriedade de “manter” ou sustentar financeiramente a casa (papel tradicionalmente atribuído aos homens), ou ainda devido a um sentimento de vingança – quando alguém querido havia sido ferido ou morto por um grupo criminoso ou pela polícia – ressaltando como a “masculinidade” devia ser mantida e afirmada através do ingresso em um grupo como resposta a uma situação causadora de estresse. Nesse sentido, a socialização de gênero, a maneira com que os valores são atribuídos a homens e mulheres, é muitas vezes determinante na forma de atuação e interação que esses homens e mulheres vão desenvolver, legitimando ou não atitudes e comportamentos violentos. Em outra pesquisa que participei, realizada com pais e mães no Rio de Janeiro em 2007, os entrevistados relatavam viver com medo de que seus filhos homens – que segundo a divisão de espaço baseada em gênero acabam passando muito mais tempo fora de casa do que as meninas – se envolvessem em gangues ou fossem vítimas no fogo cruzado. Concomitantemente, observamos altos índices de violência contra criança nos mesmos espaços, muitas vezes vistos pelos pais, como forma de “proteção” dessas crianças, que no entanto muitas vezes pareciam gerar efeito contrário, fazendo com que as crianças fugissem ou desenvolvessem comportamentos violentos em suas relações.
Discursos predominantes sobre equidade de gênero chamam atenção para as iniquidades de gênero e injustiças que muitas mulheres e crianças enfrentam, mas ainda se questiona pouco como as masculinidades hegemônicas criam vulnerabilidades para alguns grupos de homens e meninos, particularmente para os oriundos de locais de baixa renda. Em face ao discurso predominante que assume equidade de gênero como coisa de mulher, os discursos devem ser complementares, ou seja, masculinidades violentas, hegemônicas e desiguais trazem custos para as vidas de mulheres e meninas tanto quanto de meninos e homens de formas diferentes, e com freqüência, prejudiciais e destrutivos. É preciso trazer a categoria gênero para o debate sobre segurança pública e violência letal, e buscar maneiras de oferecer a homens jovens e adultos oportunidades de interagir com modelos alternativos de masculinidades, equitativos de gênero e não violentos, promovendo atitudes equitativas e não violentas em suas relações pessoais e na sociedade de forma mais ampla. É fundamental que não se trate homens jovens como replicadores vazios e passivos de normas de gênero ou de normas sociais, mas sim investir em sua capacidade de desenvolver sua própria consciência de gênero, ou atitudes críticas sobre normas hegemônicas de gênero, agindo de formas mais equitativas e menos violentas. Desta forma, enquanto homens e mulheres jovens podem estar vulneráveis por conta de uma série de fatores sociais e estruturais, eles podem também refletir sobre normas de gênero de forma crítica e alterar seus comportamentos na direção de quebrar os círculos de violência no qual são frequentemente vítimas e impulsionadores.
*Marianna Olinger, Mestre em Políticas Sociais e Planejamento pela London School of Economics and Political Science.